OPINIÃO: Quando o Congresso Trabalha para o Crime e Contra o Brasil

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Por Cláudio R. Fabi*

O Projeto de Lei 2564/2025, que o Congresso empurra em regime de urgência, não é um erro técnico, não é um equívoco político — é uma entrega deliberada da Amazônia ao crime ambiental. O texto impede que o Estado use imagens de satélite para embargar áreas ilegalmente desmatadas e exige notificação presencial antes de qualquer medida. Em plena Amazônia. Em milhões de hectares. Em regiões onde o poder público mal consegue pisar.

Ao mesmo tempo, esse mesmo Congresso passa os dias defendendo a redução do Estado, a diminuição do número de servidores públicos e o desmonte das instituições ambientais. A equação é simples: menos servidores, menos tecnologia e mais criminosos armados resultam em perda de soberania nacional.

E não é teoria. É fato.

Na última semana, cinco fiscais do Ibama foram emboscados no sul do Amazonas por cerca de 30 criminosos armados, tiveram o veículo incendiado e precisaram se esconder na mata para sobreviver. O ataque ocorreu justamente durante uma operação contra extração ilegal de madeira na Terra Indígena Tenharim‑Marmelos — madeira que, como apontam as investigações, é escoada para a região de Vila Santo Antônio do Matupi, um polo histórico de ilegalidades ambientais.

Então, vamos falar claro: exigir presença física nessas áreas não é só irresponsabilidade — é cumplicidade com o crime.

E para quem tenta revestir esse retrocesso com discurso jurídico, vale lembrar: a doutrina e a jurisprudência já reconhecem o uso de imagens de satélite como prova válida para demonstrar desmatamento ilegal. Ignorar isso é legislar contra a ciência, contra a técnica e contra o próprio Estado brasileiro

Território não é abstração: é poder

No século XXI, retirar satélites da fiscalização é voltar o Estado ao século XIX — enquanto o crime opera com logística, armas, rotas e informações atualizadas. Sem o meio técnico‑científico‑informacional, o Estado se torna cego.

A disputa ambiental é disputa territorial. E hoje, quem está vencendo a disputa na Amazônia não é o Estado brasileiro — é o crime ambiental, organizado, armado e territorializado. Cada vez que o Congresso enfraquece a fiscalização, entrega mais um pedaço da floresta para ser governado por facções e redes ilegais.

Desmontar políticas ambientais não é neutralidade — é escolher um lado. E o lado escolhido pelo PL 2564/2025 não é o das populações tradicionais, não é o do meio ambiente, não é o da Constituição.
É o lado da devastação e do crime organizado

Não é mais sobre meio ambiente — é sobre soberania

O que está em jogo não é apenas a integridade da floresta. É a integridade do Brasil. E quando o Estado não controla seu território, não é mais o Estado que governa — são outros poderes.

O que o Brasil precisa fazer agora

O Estado brasileiro precisa agir com firmeza onde o Congresso recua.
É necessário:

  • ocupar institucionalmente a região da Vila Santo Antônio do Matupi;
  • fortalecer o SISNAMA;
  • ampliar o corpo de servidores;
  • investir em inteligência, satélites e monitoramento;
  • proteger fisicamente os fiscais;
  • e restaurar a governança na Amazônia.

Isso não é política ambiental. É defesa do território nacional.

O art. 225 da Constituição diz que o meio ambiente é bem de uso comum do povo.
Mas hoje, na Amazônia, esse bem está sendo sequestrado — e o Congresso, em vez de defender o povo, está facilitando o crime.

O PL 2564/2025 não protege produtores rurais.
Não protege trabalhadores.
Não protege o país.

Ele protege o desmatamento ilegal. Ele protege o crime. Ele protege a perda da soberania.

E o Brasil não pode aceitar isso.

Cláudio R. Fabi é Analista Ambiental, diretor da ASCEMA SP/PR e da ASCEMA Nacional.

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