ASCEMA Nacional cruza CPFs de todos os candidatos às eleições gerais de 2026 com
dados do Ibama e ICMBio. Resultado: 240 autuados, 524 infrações e R$ 213,5 milhões em multas. Norte e Centro-Oeste lideram ranking; partidos de direita e centro-direita são os que mais aparecem na lista.
Por ASCEMA NACIONAL
Um relatório técnico feito com base no cruzamento de dados oficiais produzido pela Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema Nacional) identificou 240 dos 20.653 candidatos às eleições gerais de 2026 com pelo menos um auto de infração ambiental válido em seu nome. Juntos, esses autos somam R$ 213.516.574,62 em multas registradas, o equivalente a 1,16% do universo de candidaturas do país.
O levantamento cruzou, CPF a CPF, a base de candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com os registros de autuação do Ibama e do ICMBio. Segundo o relatório, o resultado expõe um cenário de “potencial conflito de interesses sistêmico”. Parte desses candidatos disputa vagas, sobretudo no Legislativo estadual e federal, que terão poder direto sobre orçamento, normas e fiscalização dos próprios órgãos ambientais que os autuaram.
Por estado
O levantamento evidencia forte concentração de candidatos autuados nas regiões Norte e Centro-Oeste, com o Tocantins liderando em número de candidatos (20) e o Pará registrando o maior volume de autos de infração (59). Segundo o relatório, “trata-se do cinturão de expansão da fronteira agrícola, mineral e madeireira”, regiões em que lideranças locais costumam emergir de atividades econômicas mais expostas à fiscalização ambiental.
Em valor total, Goiás lidera com R$ 67,6 milhões, seguido por Roraima, com R$ 55,6 milhões, mesmo com menos candidatos autuados que outros estados, o que indica casos individuais de valor muito alto.
Por cargo
Deputado estadual concentra o maior número de candidatos autuados (119) e o maior valor agregado (R$ 129,7 milhões), seguido por deputado federal. O relatório da Ascema argumenta
que cargos proporcionais “exigem menos escrutínio público do que eleições majoritárias”, o que os tornaria “uma rota viável para atores com passivos vultosos construírem influência institucional”.
Chama atenção o caso do 1º suplente: apenas 9 candidatos, mas R$ 10,9 milhões em multas — mais do que o total registrado para todos os candidatos ao Senado. Para os autores do relatório, isso sugere o uso da suplência “para acomodar figuras financeiramente pesadas fora dos holofotes da cabeça de chapa”.
Por partido
PL, MDB e Podemos lideram em número absoluto de candidatos autuados. Os casos mais extremos de concentração de valor, porém, estão em dois partidos de menor expressão nacional. O Mobiliza, com apenas 3 candidatos, registra o maior valor total de qualquer legenda no levantamento — R$ 67,1 milhões. Já o Democracia Cristã (DC), com 9 candidatos e R$ 54 milhões, é o segundo maior valor. O relatório da Ascema interpreta esses casos evidência do papel de “legendas menos expressivas” usadas como “instrumentos de abrigo partidário para candidaturas pontuais com alto poder econômico e grande passivo individual”.
Sobre o levantamento
O relatório da Ascema sustenta que o risco não está no auto de infração em si, mas na sobreposição de papéis, onde quem já foi fiscalizado passa a disputar os instrumentos que decidem o futuro dessa mesma fiscalização, como orçamento, normas, nomeações e controle sobre o Executivo.
O cruzamento foi feito exclusivamente por CPF completo e idêntico entre a base de candidaturas do TSE (eleições 2026) e as bases públicas de autuação do Ibama e do ICMBio. As autuações ambientais aplicadas por órgãos estaduais e municipais de meio ambiente ficaram fora do levantamento. Eventuais infrações cometidas por empresas das quais o candidato seja sócio ou proprietário, identificadas por CNPJ, também não entraram na conta. Foram excluídos autos classificados como cancelados e anulados. Os valores somados são os registrados no momento da lavratura do auto, sem correção monetária.
A planilha completa, com os dados dos 240 candidatos e dos 524 autos, está disponível para consulta pública logo abaixo.
Para Wallace Lopes, autor do relatório, “a disponibilização dos dados cumpre uma função democrática de dar transparência ao histórico de autuações ambientais dos candidatos, fornecendo subsídios para que a imprensa, os órgãos de controle e os eleitores avaliem detalhadamente quem terá o poder de ditar os rumos da preservação ambiental no país”.

